sábado, outubro 11, 2008

I. A “crise” na sociedade capitalista

Em tempos de incerteza, não me parece muito arriscado diagnosticar que quem, à esquerda, tem vindo a referir que os tempos que vivemos anunciam o fim do capitalismo, está enganado. A história ou a leitura de Marx, tornam clara a relação genética e cíclica dos momentos de crise com o desenvolver da sociedade capitalista.
Aliás, essa é um pouco a história do Séc. XX. Violentos momentos de crise e guerra em paralelo com ofensivas contra os direitos dos cidadãos.

II. É o capitalismo que vos fala

Temos antena aberta para todos os responsáveis.
Bush fala num “eles” que causaram a crise, McCain nos de “Wall Street”, Sócrates culpa os que defendiam “mais mercado”, Berardo critica as vinte “companies” que detêm 27% da riqueza no Mundo e Salgueiro culpa a imprudência dos portugueses.
Rapidamente o mais fervoroso adepto da economia de mercado de ontem, lança chavões esquerdistas, contra os “outros”. Na crise perde-se pudor e a última honestidade, culpando-se “o outro” abstracto.
Mas quando alguém diz, que estes “outros” sois vós, imediatamente se transfigura o discurso para o da inevitabilidade da sociedade capitalista.

III. Os Media e o capitalismo


Na próxima semana anuncia-se para a RTP1 do serviço público, um debate denominado “Prós e Contras”, para o qual estão convidados os presidentes dos quatro maiores bancos nacionais.
Na situação actual, o capitalismo ganha cegueira e silencia outras vozes, para a defesa do seu estado em todos os horários nobres.
A dúvida e a falta de confiança que temos em quem nos governa (nos bancos, nas empresas, e nos governos), sedimenta-se na rua mas é expulsa do debate. Por razões de força maior, o pluralismo segue dentro de momentos.

IV. Em quem confiar?

Sabemos que no contexto actual a informação é cada vez mais filtrada e oculta. Quem conhece alguém que trabalhe numa agência bancária ou quem tenha passado por um banco na última semana, sabe que existe um processo de levantamento de dinheiro compulsivo, que os telejornais ocultam. Para quê ter uma conta à ordem, sem juros, e com a instabilidade do dinheiro desaparecer?
Na hora de zelar pelas suas poupanças, os portugueses sabem, que Cavaco, Sócrates, Teixeira dos Santos ou Constâncio, têm outras agendas e que nunca demonstraram especial carinho pela palavra dada.
Alguém tem dúvidas que, Cavaco ou Sócrates não estão a fazer tudo para aguentar o BPN, dos amigos Dias Loureiro e Cadilhe, às nossas custas – ver a notícia do DN de hoje.

V. Quem ganha e perde com a crise?


A notícia que alguns quadros de topo da AIG, após a injecção de capital por parte do estado, foram passar uma semana a um “resort” turístico (leia-se a propósito o comunicado da empresa que não o desmente), ou os prémios e regalias com que os administradores de grandes empresas continuam a viver, ajuda a desenhar o retrato de uma crise que apenas atinge as classes médias e baixas do mundo inteiro.
Apesar de uma ou outra voz do regime anunciar “investigações” ou “multas”, não é difícil adivinhar que ninguém se aproximará de uma cela.

VI. A “crise” e o seu carácter revolucionário

Ainda que pense que estas “crises” são de carácter endémico, cíclico e necessárias à sobrevivência do capitalismo, também acredito que são estes os momentos em que mais se fragiliza.
Sinais como a manifestação de ontem em Londres “Make the fat cat pay” ou o processo de depósitos massivos no banco Inglês que no dia anterior tinha sido nacionalizado (o que levou o governo a bloquear os depósitos), revelam a necessidade de uma maior intervenção do Estado, pondo em causa as bases do neoliberalismo.
Aliás, parece que os defensores do mercado livre ou da diminuição do peso do Estado, embora continuem a discursar se afastam conjunturalmente do anteriormente defendido.

VII. A táctica de Sócrates

Sócrates não inova. O primeiro discurso é contra “os que defendiam menos Estado”, esquecendo por momentos a Esquerda Moderna que extingue hospitais e maternidades, que obriga as universidades públicas a dependerem de receitas privadas ou que despede e reforma compulsivamente os funcionários do Estado. Declara-se a favor de uma maior regulação e de um papel mais interventivo do Estado, contrariando a amálgama ideológica que consta no Programa do Governo do PS:

O actual estágio de desenvolvimento das Economias Ocidentais colocou, na ordem do dia, a necessidade de coexistência das três tipologias estruturantes da actividade económica: as formas de organização típicas da Economia de Mercado, cuja sua mais acabada expressão são as Empresas obedecendo naturalmente ao primado do lucro; o Estado que, nos seus
vários níveis, procura a geração dos bens públicos; e as Organizações de Cidadãos que buscam juntar critérios de eficiência com os objectivos sociais de produção de determinados bens públicos críticos (saúde, solidariedade social, educação, habitação, etc.), ou seja que traduzem a simbiose entre a economia de mercado e as preocupações sociais.
“ pp. 66

Desta forma o primeiro ministro procura ocultar o seu passado recente e coloca-se de fora.
Contudo, em paralelo e num esforço olímpico do triplo salto, ensaia o discurso que em Portugal não será assim tão mau porque “nós” (agora sim, “eles”) prepararam o país.
Nada que Salazar não tenha feito.

A Sá Fernandização do PSD:

Lisboa: PSD quer substituir construção polémica no Largo do Rato por um jardim

sexta-feira, outubro 10, 2008

Casamento entre pessoas do mesmo sexo

O mundo anda preocupado com a "crise". Durante o fim de semana tenciono escrever um pouco sobre isso.
Contudo, hoje mesmo, o PS prepara-se para baixar a democracia ao grau zero. Os seus deputados demonstrando um "elevado" valor cívico e moral aceitarão, depois do reconhecimento do Kosovo, mais um ditame do Pai Sócrates ao votarem contra as propostas de legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo.
Se a questão fosse posta num dos partidos de esquerda, facilmente os jornais lhe chamariam um comportamento estalinista. Como é com o PS referem que é o respeito pela decisão maioritária.

quinta-feira, setembro 25, 2008

Quando te sentires apertado, culpa quem está à volta...



"O presidente da Associação Portuguesa de Bancos justificou, esta quarta-feira, as constantes subidas da Euribor com a falta de confiança no mercado interbancário. À TSF, João Salgueiro culpou ainda os portugueses pelo excesso de endividamento."

Na opinião do homem os portugueses são estúpidos. Só é pena é que tenha sempre vivido à custa do dinheiro dos portugueses. De cabeça perdida, o ex-Ministro e banqueiro do regime, vem agora dizer que a culpa é dos portugueses.
É nos momentos de tensão que caiem as máscaras da "seriedade" e da "inteligência".

domingo, setembro 21, 2008

Tudo bons rapazes

"JS desiste de agendar proposta sobre casamento homossexual na actual legislatura"

A "palavra" dos jotas durou 1 mês. Gente de confiança.

Defendemos isto, até fazermos exactamente o contrário

[Somos por uma] "segurança social pública que garanta o futuro das pensões"
José Sócrates, 20 de Setembro de 2008

Com esta declaração de Sócrates pudemos ter a certeza de duas coisas:
1. Sócrates já pensou sobre a hipótese de privatizar as reformas;
2. Dentro de um ano o PS, em coro, poderá dizer exactamente o contrário.

quarta-feira, setembro 03, 2008

Pedro Ornelas

Há alguns anos que sou frequentador assíduo do Céu sobre Lisboa e, no passado 11 de Julho, conheci o Pedro Ornelas - ambos fomos convidados para escrever um projecto para viajantes, ele com a paisagem, eu com a arquitectura.
Mas só hoje me apercebi que o Pedro era o autor do Céu sobre Lisboa, e que faleceu uns dias depois de o conhecer. A morte é sempre uma coisa estranha e absurda.

[Soube da notícia através do Daniel Carrapa e aconselho a leitura do post escrito pelo Ivan Nunes]

quarta-feira, agosto 27, 2008

Recursos naturais

27.08.2008, Paulo Varela Gomes in Público

É Agosto, há férias aí em Portugal, volto portanto a assuntos relacionados com a questão fundacional com que se deparam os portugueses que saem fronteiras e entram "na Europa": porque é que nós não somos assim?
Sou historiador da arte e da arquitectura. Ao visitar recentemente as cidades flamengas, coloquei a mim próprio duas perguntas dedutíveis a partir da tal questão fundacional, perguntas que há anos faço a mim próprio mal chego a Salamanca ou Sevilha: porque é que só temos um mosteiro da Batalha e um mosteiro dos Jerónimos, quando na Flandres, na Espanha, na França, há dezenas?
De facto, não é possível comparar sem uma espécie de desmaio da alma o património artístico português com aquele de outras regiões da Europa de dimensão populacional semelhante: Castela, Aragão, a antiga Borgonha, a França parisiense, a Toscânia, o Véneto, a Lombardia, a Alemanha do norte (ao nível português estarão a Galiza, Nápoles, a Inglaterra, a Dinamarca, a Polónia).
Portugal foi senhor da "navegação e do comércio da Etiópia, Arábia, Pérsia e Índia" (para já não falar do Brasil). Para onde foi a riqueza que teria resultado dessa "época de ouro" de expansão?
A historiografia e a ideologia anticlerical e republicana conta-nos desde o século XIX que tudo ou quase tudo se teria evaporado por culpa da nobreza e do clero, classes dominantes que teriam gasto em coisas sumptuárias os proveitos da expansão. Pois muito bem, pergunto eu que sou historiador da arte: onde está a arte, essa coisa sumptuária por excelência?
Não está. E não está porque não havia em Portugal riqueza nenhuma, poderio marítimo ou não poderio marítimo.
A riqueza, aquela que deu palácios, mosteiros, catedrais, pintura e escultura, a nobres, clérigos e príncipes, franceses e castelhanos, flamengos e toscanos, não veio da expansão marítima. Veio da terra.
No seu relatório Rumo à Vitória (1964), Álvaro Cunhal entrou numa espécie de polémica imaginária com Salazar. Este teria por hábito afirmar que Portugal é um país pobre. Não senhor, escreve Cunhal, "os recursos naturais do país são suficientes para garantir o bem-estar material a todos os portugueses".
O bem-estar, é possível. Agora grande arte e arquitectura, não. Os "recursos naturais do país", ou seja, em termos tradicionais, a agricultura, foi sempre miserável e, com ela, miseráveis os aristocratas, os conventos, os príncipes incultos, desinteressados das artes. O facto de só haver em Portugal um mosteiro dos Jerónimos diz tudo o que é preciso sobre o que foram as classes dominantes do reino, e a monarquia, na "época de ouro": pobres.
Os proventos resultantes do senhorio "da navegação e do comércio" ficavam nele, pagando a vastíssima rede de fortalezas que os portugueses deixaram pelo mundo inteiro e os homens que nessas fortalezas viveram e morreram. Serviram para proteger um império que não dava dinheiro à custa de todo o dinheiro que dava.
Pensando bem: há nisto alguma coisa de extraordinário.

sábado, agosto 23, 2008

Notícias pouco surpreendentes:

"Valentim admite apoiar Sócrates"
Valentim Loureiro nunca fará campanha pelo PS, mas simpatiza com Sócrates e admite apoiá-lo nas legislativas.
Suspenso do PSD, Valentim Loureiro poderá apoiar José Sócrates nas próximas legislativas. "Ele até já oferece computadores, como eu fiz há muitos anos", diz Valentim.

Ricardo Jorge Pinto
18:00 | Sexta-feira, 22 de Ago de 2008

quinta-feira, agosto 21, 2008

Jogos Olímpicos

De quatro em quatro levanta-se o habitual torpor dos atletas de sofá, sobre a prestação dos atletas portugueses, este ano apimentadas, pelas declarações do comandante da delegação portuguesa Vicente Moura - o primeiro rato a abandonar o barco.
No dia em que Vanessa conquistou a primeira medalha, o comandante veio fazer declarações despropositadas atacando veladamente outros atletas e pondo uma enorme tensão sobre toda a comitiva e em especial sobre os atletas que ainda tinham de efectuar as suas provas. Já todos sabíamos que o comandante teria poucas condições para continuar, por causa das suas declarações e pelo facto de estar à mais de 400 anos a trabalhar de 4 em 4 anos. Mas passado uns dias, o comandante resolveu anunciar que se demitia, ainda antes do Jogos terminarem.
Que os atletas digam disparates, não me preocupa nada. Que quem é pago para comandar (e não para opinar), desestabilize, isso sim, é dinheiro mal gasto do erário público. E já lá vão tantos quatro anos!

quarta-feira, agosto 20, 2008

Férias II

Castelo Branco
Para outras visitas aqui fica o Flickr da mãe

Férias I

Tal como no ano passado aqui fica o Top 3 da Amélia no Youtube:


Pedro e o Lobo


Pantera Cor de Rosa


Pluto's Fledgling

sábado, agosto 16, 2008

"Sócrates reaproxima-se de Alegre"

Por Helena Pereira com Sónia Trigueirão no Sol
Sócrates reaproximou-se de Manuel Alegre, tendo almoçado com ele por duas vezes. Depois do distanciamento de Alegre em relação à direcção do PS, esta ‘reconciliação’ mostra que Sócrates não quer perder as pontes com a esquerda do partido, tendo certamente em vista as próximas legislativas e presidenciais

José Sócrates e Manuel Alegre foram de férias em clima de grande sintonia. A hipótese de Manuel Alegre voltar a candidatar-se às eleições presidenciais, mas desta vez com o apoio do PS, está a ganhar força. Seria uma nova forma de cooperação estratégica entre socialistas
Os dois almoçaram juntos num restaurante de Lisboa e fizeram as pazes depois do comício do Teatro da Trindade (organizado pelo Bloco de Esquerda no final de Maio e em que Alegre desferiu um duro ataque ao Governo do PS). Na altura, Alegre afirmou que a sua «lealdade é para com os portugueses e para os que votaram no PS e estão na pobreza» e quis mostrar, ao lado do BE, que é possível «quebrar o tabu e o preconceito segundo o qual as esquerdas não se podem unir».